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Ononono Valeu!
Uma história da leitura

Uma história da leitura

Eu aprendi a ler com 40 anos. Assim o moço pequeno, forte, negro e sorridente, ao meu lado no ônibus, puxou assunto.

– E quantos anos você tem?

– Eu tenho 42, ele sorria orgulhoso.

– Então foi bem recente, hein? E antes disso, você não lia nada?

– Na verdade eu comecei a pelejar com isso aos 30, mas não tinha jeito, começava naquelas salas de aula de adulto, logo tinha que viajar para trabalhar e nunca ia pra frente. Até comprei um livro, uma vez, daqueles de criança mesmo, para tentar me alfabetizar sozinho, mas aprendi pouca coisa.

– E você trabalha com o quê?

Eu trabalhei de tudo (me mostra as mãos machucadas).Sei mexer com roça e gosto, tenho talento. Sei extrair qual­quer tipo de pedra quadrada, já trabalhei com isso. Agora mexo com carpintaria em grandes obras. Sou cachimbo, que é o primeiro cargo acima dos encarregados. Acima de mim tem o feitor e assim vai… Já comandei até vinte homens!

– Nossa, e isso sem saber ler!

– Minha sorte é que não sabia ler, mas sabia conversar. Guardo muita coisa na cabeça. As regras de segurança, por exemplo, não pode subir no andaime acima de dois metros sem o equipamento de segurança. Se tiver aquela placa de pe­rigo, não ultrapassar, na obra, eu sei que não posso ir lá, senão podem me demitir por justa causa. Então eu falava isso e os patrões nem desconfiavam que eu não conseguia ler direito.

– E quando você era criança, ninguém colocou você na escola?

– Era longe. Eu sou de Natal, meus pais trabalhavam na roça, plantação de abacaxi. Meu pai queria que eu estudasse, falava muito nisso, que era bom eu estudar que isso um dia me faria falta. Mas era difícil demais chegar até a escola. Então eu falei que preferia ajudar eles na roça, criar meus nove irmãos. Ah, mas quando eu fui cutucar aquela máquina do banco…

O caixa eletrônico?

– Quando fui tentar usar o caixa eletrônico e não saía nada, só lembrava do meu pai me falando para estudar. É horrível você ter que entregar seu cartão de banco na mão de alguém, ter que confiar num desconhecido, não é?

– Como você aprendeu a ler?

– Um amigo meu me ensinou, os olhos dele brilha-ram incrivelmente.

– Ah foi?

– Ele é do Pará, trabalhamos juntos no Maranhão. Gostei do jeito dele e ele gostou do meu. Pegamos uma amizade tão boa que, quando a gente folgava, nós dois íamos junto pro Pará, ou pra minha terra, Natal, ou quietava lá no Maranhão. Sempre juntos, uma amizade boa que a gente pegou, parceria mesmo, toda confiança… Ele disse que eu não podia ficar sem saber ler, e ele me ensinou a ler.

– O que ele fez?

– Ele fez assim, me levou no caixa e me ensinou “conta corrente” e “conta poupança”, e eu aprendi a identificar. Mas ele não ficava só no caixa, ele ia para o caderno comigo, pro A,B,C, pro BÁ, BÉ, BI, BÓ, BÚ. E no caixa ele me ensinou “en­ter”, a palavra “enter”, que é importante a gente saber, e aí temque apertar a tecla verde quando a gente concorda.

– O enter é importante mesmo…

– E aí ele me ensinou “saque” e eu aprendi e fui aprenden­do de tudo, inclusive a quantidade de zeros nos números, se quer cem ou mil. Hoje eu uso o caixa eletrônico sozinho. Não me perco quando viajo, sei ler o nome lá no ônibus, Gê, Go, Goiânia, eu leio lá. Antes eu aprontava tanta confusão!

– Eu imagino…

– É tão bom saber ler, não é?

– É maravilhoso! Parabéns por ter aprendido, imagino que se esforçou bastante.

– Vou aprendendo cada vez mais, o meu pai estava certo, saber ler faz falta. Agora já sei tantas coisas, só que em algu­mas palavras eu ainda tropeço, sabe?

– Sei, eu também.

Ele sorriu.

Seus olhos estavam mesmo brilhantes.

Não perguntei o seu nome. Fiquei gostando de chamá­-lo mentalmente de Riobaldo. E a seu querido amigo paraense, Diadorim.

*

Esta crônica faz parte do livro No Meio do Caminho

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